O DESAFIO DE SER CRIANÇA HOJE: A IMPORTÂNCIA DA AUTÔNOMIA

Um dos problemas mais relevantes que abordamos hoje com os pais em relação à educação e desenvolvimento infantil é a falta de autonomia. Hoje a média de filhos é de 1 a 2 filhos por casal, o que difere bastante das numerosas famílias de antes. Costumo brincar que, se tivéssemos oito filhos, todos teriam autonomia, amarrariam os próprios sapatos, comeriam sozinhos e vestiriam suas próprias roupas. Atualmente, por termos menos filhos (e me incluo nisso) e também por uma compensação que vem muitas vezes por “culpa”, acabamos “fazendo” mais por eles. Alguns pais que trabalham bastante, quando estão em casa com os filhos sentem-se na obrigação de servi-los a todo momento, favorecendo a perda de autonomia. Quando as crianças recebem algo pronto (como um simples copo d’água), não mais precisam coordenar o que pensam, sentem (ex:sede) com a coordenação motora. Não participam do processo, onde existe começo, meio e fim, como, por exemplo, participar da preparação de um alimento. As nossas crianças de hoje não ficam atentas ao momento presente, aos movimentos do corpo, e ficam como nós adultos estamos hoje: no futuro(ansiosas) ou no passado(deprimidas), nunca no agora.

Em alguns berçários os bebês já não sabem mais descascar bananas, porque os pais já as dão descascadas e praticamente mastigadas (amassadas), assim, não fazem mais os movimentos de pinça (importantes para a posterior pega), nem os dentes trabalham (assim, a arcada não cresce, falta espaço para erupção posterior dos permanentes). E como naturalmente optamos pela lei do mínimo esforço, as crianças não mastigam mais alimentos consistentes e aproximadamente 8 em cada 10 crianças hoje tem problemas com a arcada dentária.

Arrumar a própria cama então é quase uma escravidão, evidencio então hoje cada vez mais crianças rápidas mentalmente (mexem com qualquer controle remoto ou desbloqueiam senhas com facilidade), mas onde o corpo não acompanha, porque os movimentos são sempre poupados.

As crianças de zero a 6 anos já tem uma tendência maior a ficar no “mental”, na fantasia e se não as trouxermos para o “corpo”, para as atividades no concreto, para o “pé no chão”, para o “agora”, elas ficam cada vez mais no “mundo da lua”. A mente é rápida e super-estimulada, mas tem dificuldades com organização espacial, tropeçam e caem com facilidade, dependem de um adulto para realizar as atividades e tem menos confiança em sua capacidade. Sim, porque quando fazemos por elas, demonstramos no fundo uma falta de confiança na capacidade que elas têm de realizar as próprias atividades. E somando-se isso ao reduzido número de filhos por família, o aumento da violência e insegurança nas ruas, a culpa que hoje alguns pais sentem por trabalharem fora – pronto: televisão e computador neles. Estabelece-se então cada vez mais a lei do mínimo esforço, onde tudo já vem pronto e o mundo está aí, para servi-los sempre.

Até mesmo os brinquedos hoje brincam sozinhos, as crianças são meros “espectadores”, assistem aos brinquedos que dançam, correm sozinhos, diferentemente quando tínhamos que “criar” os próprios brinquedos. Está montado então o ciclo: Nossas crianças passam ainda mais tempo na fantasia e experimentando cada vez menos situações reais, que a tirem da zona de conforto. E todas vez que saimos de nossa zona de conforto, entramos na de poder, onde temos que desenvolver habilidades antes ainda não experimentadas, como mudar de classe, de amigos, de brincadeiras, coisas que antes aconteciam naturalmente nas ruas.

Perda de autonomia, medo de enfrentar situações diferenciadas daquelas do cotidiano (ainda que corriqueiras), dificuldade de relacionar-se com outras pessoas (principalmente estranhos, em situações cotidianas, como ir ao banco, comércio, serviços…), falta de iniciativa, reclusão, distanciamento da realidade, isolamento em mundos alternativos (como o virtual, em computadores e videogames)… Criamos hoje crianças inseguras, com baixa auto-estima e sem poder pessoal. É fato, por exemplo, que em países onde a alta tecnologia já se estabeleceu de forma quase onipresente, como o Japão, a existência de adolescentes que tem amigos no universo virtual e não conhecem e nem interagem com colegas de sala ou vizinhos. No Brasil, as crianças estão desaprendendo as brincadeiras de rua, tradicionais até algum tempo atrás, tendo dificuldades de estabelecer amizade com colegas que vivem na mesma rua e também se refugiando em computadores, tablets e games…

Apesar da fama liberal que ronda os brasileiros, o protecionismo fala mais alto quando o assunto é educar os filhos. Principalmente se, para aprender, as crianças tiverem que experimentar situações novas. Preocupados com a segurança e com medo de que as crianças possam machucar-se, os pais, por muitas vezes, acabam impedindo os pequenos de explorar algo novo ou passar pela frustração.

Esta foi a conclusão da pesquisa Tente Algo Novo, que ouviu 800 crianças de 8 a 13 anos de quatro países: Brasil, Argentina, França e Reino Unido. De acordo com o estudo, cerca de 82% dos entrevistados alegam que a preocupação de as crianças se machucarem é um impedimento na hora de deixá-las experimentar coisas novas, frente a 69% dos pais entrevistados na Argentina, França e Reino Unido.

De acordo com Jerome e Dorothy Singer, professores de psicologia da Universidade de Yale e coordenadores do estudo, é fundamental que as crianças vivenciem experiências novas que envolvam um certo risco, desde que com supervisão e regras claras. Segundo os especialistas, o fato contribui para libertar os pais para que, também, libertem os seus filhos dos medos excessivos e hábitos sedentários. “O estudo reforça a importância de dar às crianças a oportunidade de aprender pela experiência, mesmo que essa possa envolver um certo grau de risco aparente ou de exposição a comportamento inéditos. As crianças podem sentir-se mais felizes quando expostas a novas atividades, porque encontram novidade, excitação e a chance de tentar, por elas mesmas, algo diferente do que as experiências que lhes foram dadas em casa, prontas”, afirma Jerome”

E podemos sim, dividir tarefas com nossos filhos, permitindo-os que sintam-se seguros ao sentirem que confiamos na capacidade que tem de enfrentar o novo, inclusive nos libertando de tanta culpa e descomplicando, simplificando situações para evitar poupá-los demais de situações importantes que irão prepará-los para a vida.

Apenas para refletir, e sim, se fizer sentido, Agir!!!

Erika Pignataro Massaro

Coodenadora geral do Programa CrianSaúde

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *